A propósito de uma cartilha do MEC
- Ivone Benedetti
- 15 de mai. de 2011
- 8 min de leitura

Fui durante certo tempo professora de portuguĆŖs. Nunca achei que a função do professor de portuguĆŖs fosse falar em certo ou errado, mas sim desvendar as estruturas linguĆsticas que estĆ£o Ć disposição de seus falantes como potĆŖncia Ć espera do ato, mostrar que sĆ£o muitas as maneiras de usar a lĆngua criativamente, provar que esta Ć© um patrimĆ“nio cultural inigualĆ”vel e, principalmente, ajudar a escrever cada vez mais e melhor. NĆ£o Ć© fĆ”cil. Consegui umas vezes, outras nĆ£o. Mas hĆ” os que nĆ£o conseguem nunca. Ć coisa difĆcil para os que foram formados no velho esquema do certo e do errado e nĆ£o se livraram dele. Mas, por incrĆvel que pareƧa, tambĆ©m o Ć© para a nova geração, formada pela cartilha linguĆstica das Ćŗltimas dĆ©cadas. Nestes professores, a Ćŗnica preocupação parece ser a de matar o pai, no sentido freudiano. Assim, a minha impressĆ£o Ć© de que se continua nĆ£o ensinando o que realmente importa, em virtude da dificuldade que as pessoas tĆŖm de se livrar de esquemas unilaterais.
E o leigo? Leigo Ć© aquele indivĆduo que sempre tem uma pergunta do tipo ācomo se diz ou escreve tal coisa?ā. O leigo quer receita. E com razĆ£o. LĆngua Ć© um assunto complicado (qualquer lĆngua, meus senhores!). E com o que Ć© complicado, de duas uma: ou a gente estuda para tentar desvendar os mistĆ©rios, ou deixa que os outros estudem e contem os mistĆ©rios para a gente. O leigo estĆ” no segundo caso. Nascemos todos com a potencialidade da fala, mas nĆ£o nascemos com a lĆngua, assim como nascemos com a intuição do ritmo, mas a danƧa exige de nós um aprendizado, e com base na simples intuição ninguĆ©m farĆ” parte de uma orquestra sinfĆ“nica.
No entanto, parece que hoje em dia a tendĆŖncia Ć© achar que a gramĆ”tica (no sentido de conjunto de processos de construção e expressĆ£o de uma lĆngua, e nĆ£o de prescrição de normas) jĆ” nasce conosco, Ć© inata, natural, inerente, e só nos cabe dar-lhe ouvidos e vazĆ£o; que tudo o que dizemos Ć© expressĆ£o dela, e que, portanto, o modo como a fala nos expressa Ć© sacrossanto, sendo profanas e sacrĆlegas as convenƧƵes gramaticais (agora sim, no sentido de normas ou nomenclaturas). O que vale Ć© a interioridade individual e a sua eventual manifestação coletiva, perdendo todo o valor a convenção que nos precedeu, formulada talvez por representantes de uma classe que desprezamos.Tem preeminĆŖncia a lĆngua falada, expressĆ£o imediata dessa individualidade. A escrita, que nĆ£o Ć© imediata nem espontĆ¢nea, nĆ£o passa de reflexo morto da verdadeira vida. Um mal necessĆ”rio, talvez.
Enfim, Ʃ o culto histƩrico da naturalidade contra a artificialidade, do inato contra o adquirido.
Num paĆs que pouco lĆŖ, tudo isso se explica.
Voltando ao leigo. Quando alguĆ©m pergunta a um āespecialistaā como se diz ou escreve algo, a mensagem subliminar Ć© a seguinte: preciso pensar em outras coisas, quero uma fórmula que resolva este meu problema imediato. E por que aquele Ć© um problema imediato? Se quem pergunta sabe falar (e tanto sabe que perguntou), se usa sua lĆngua a contento para se comunicar (a tal ponto que conseguiu transmitir ao consultado a sua dĆŗvida), por que ele quer saber se (por exemplo) o pronome naquele caso vai antes do verbo ou depois do verbo? Em que a sua comunicação vai ser dificultada ou impedida caso ele diga āMe sinto bemā ou āSinto-me bemā? Rigorosamente, em nada. EntĆ£o por que a preocupação?
AĆ, duas respostas. A primeira Ć© que com isso o falante quer se integrar na comunidade (importante para ele) que maneja bem o instrumento lĆngua e conhece suas convenƧƵes. Sim, porque o conjunto de regras desse tipo acima(nĆ£o se pode dizer o mesmo sobre todos os fatos da lĆngua) Ć© bem do Ć¢mbito da convenção pura e simples. A segunda Ć© que a lĆngua nĆ£o Ć© só comunicação, e que āMe sinto bemā ou āSinto-me bemā, na verdade, nĆ£o significam a mesma coisa em termos simbólicos, e o consulente talvez o intua.
A respeito de tudo isso muitos jĆ” escreveram, o que significa um bom cabedal de sabedoria para se pensar. Na teoria. Porque na prĆ”tica, das pessoas envolvidas com o assunto, umas agem como se a lĆngua fosse uma entidade aristocrĆ”tica que precisa ser reverenciada como divindade, e outras, supervalorizando o seu lado plebeu, querem promover, a qualquer custo, a sua ascensĆ£o a um novo e reverenciĆ”vel Olimpo. O resultado Ć© sempre o mesmo: a imposição. Os dois lados sĆ£o insuportavelmente autoritĆ”rios. Com algumas nuances: pois alguns, vivendo uma verdadeira guerra, acham que todo o mundo estĆ” acreditando que a sua causa Ć© a lĆngua, quando na verdade Ć© uma ideologia. Porque lĆngua nĆ£o Ć© só lĆngua nunca. E nem eu agora estou falando só de lĆngua: eu estou falando de conflitos de classes e valores simbólicos. Acontece que o poder simbólico da lĆngua Ć© tĆ£o abrangente e permeante, que Ć© difĆcil distinguir as coisas. Principalmente para quem estĆ” no meio do jogo. Mas quem se especializou no assunto teria a obrigação de ver com clareza. Para tanto, seria preciso uma boa dose de estudos de filosofia, sociologia, antropologia e psicologia. Quem faz isso?
Voltando Ć questĆ£o da convenção. Desde que Saussure falou do assunto, sacralizou-se a sua cartilha. De pouco adiantou Jakobson e Benveniste fazerem reparos a esse conceito de convencionalidade/arbitrariedade do signo: atĆ© hoje, no Brasil, hĆ” gente que quando fala em convenção só cita Saussure. Resumindo grosseiramente, o que Saussure quis dizer na sua Ć©poca (quando devia ser preciso fazĆŖ-lo) Ć© que a lĆngua nĆ£o baixou do cĆ©u dada por Deus ou pelos deuses, que ela Ć© fruto humano. Perfeito. O Ćŗnico problema Ć© que a ideia de arbitrariedade passou a ser confundida por alguns com vale-tudo: se tudo Ć© convenção, tudo pode ser mudado. Ora, vivemos de convenƧƵes de todos os tipos e achamos normal respeitĆ”-las, porque foram feitas para isso, mas as da lĆngua sĆ£o altamente questionĆ”veis aos olhos de muitos. Por que essa sanha? Por causa do seu valor simbólico. A ninguĆ©m ocorre questionar se devemos ou nĆ£o comer arroz com garfo, visto que a colher Ć© muito mais prĆ”tica. Trafegar pelo lado direito da rua quando ela tem duas mĆ£os tambĆ©m Ć© uma convenção (em vez disso, poderia ter sido convencionado o esquerdo). Neste Ćŗltimo caso, o desrespeito Ć convenção pode valer a própria vida (ou a de outros), mas no caso da colher o resultado prĆ”tico Ć© diferente, ninguĆ©m arrisca a vida, seria mais fĆ”cil questionar. Quem quiser comer arroz com colher em qualquer restaurante de nossas cidades serĆ” visto no mĆnimo como um roceiro que nunca aprendeu como usar talheres. Preconceito? Sem dĆŗvida. Mas quem quer enfrentĆ”-lo? AlguĆ©m poderia atĆ© defender o uso das mĆ£os: Ć© o Ćŗnico realmente natural. No entanto, por que tendemos a respeitar convenƧƵes? Porque tememos a arbitrariedade total, a anomia. As convenƧƵes linguĆsticas nĆ£o sĆ£o muito diferentes das outras: seu objetivo Ć© criar pontos de referĆŖncia dentro de dada comunidade (basta consultar a história das gramĆ”ticas das lĆnguas modernas). Quando alguĆ©m pergunta: ācomo se diz isso?ā, estĆ” implicitamente dizendo: āquero ser aceito nessa comunidade linguĆsticaā. Por que lhe negar a resposta? Por que passar sermĆ£o a cada vez que alguĆ©m se preocupa com uma regrinha gramatical? Por que demolir quem dĆ” a resposta? Por que impingir aos leigos reflexƵes que caem muito bem em ambiente acadĆŖmico, mas para as quais estes estĆ£o pouco se lixando?
Que impertinĆŖncia!
Quem escreve num livro didĆ”tico: āse vocĆŖ disser xxx, poderĆ” ser alvo de preconceito linguĆsticoā deve entender de linguĆstica, mas nĆ£o entende nada de preconceito. A roupagem linguĆstica do preconceito esconde muito mais coisas do que mostra. O preconceito Ć© de classe, de pertencimento social, nĆ£o de lĆngua. Quem diz ānós vaiā passa o atestado de sua origem humilde, do estrato social pouco valorizado a que pertence. Portanto, tem-se aĆ uma manifestação simbólica, em que a forma linguĆstica estĆ” por outra coisa. Logo, falar em preconceito ālinguĆsticoā Ć© eufemismo. Ora, o estudante estĆ” na escola para aprender aquilo que nĆ£o lhe foi dado com o nascimento nem com a paternidade: um nĆvel de saber que ele nĆ£o pode encontrar em outro lugar. Ć interessante os autores da frase do livro adotado pelo MEC nĆ£o terem percebido (ou terĆ£o?) as mensagens implĆcitas do que escreveram. Quais sĆ£o elas? Em primeiro lugar, uma espĆ©cie de negação ou, no mĆnimo, atenuação da importĆ¢ncia da escola para o ensino daquele saber. O aluno poderĆ” se perguntar: se tanto faz, por que esse esforƧo? E aĆ o professor de portuguĆŖs que se vire para justificar sua presenƧa lĆ”. Em segundo lugar, estĆ” a ideia de que lĆngua só serve Ć comunicação imediata. Ć falso. Para a comunicação imediata o que se aprende em casa dĆ” e sobra. Qualquer um entende o que significa āNós vaiā sem ir Ć escola. A terceira mensagem Ć©: quem considera errĆ“nea uma forma como essa Ć© preconceituoso, portanto desprezĆvel. Porque a palavra preconceito e derivados tĆŖm o dom de acender o justo anseio de justiƧa e punição, a divina, angelical, indignação da vĆtima e de seus defensores.
SerĆ” que isso tudo nĆ£o foi capaz de deter o Ćmpeto do autor? Ou nem lhe passou pela cabeƧa?
Se ele pensou em tudo isso e mesmo assim escreveu essa frase, faltou-lhe prudência. Se não pensou, faltou-lhe instrução.
Para nĆ£o tornar este texto muito longo, passo ao aspecto da lĆngua como algo mais que mero meio de comunicação imediata e banal. Ela nĆ£o Ć© só isso. LĆngua Ć© muito mais. LĆngua Ć© repositório cultural. LĆngua Ć© arte na literatura. LĆngua Ć© o meio de que nos servimos tambĆ©m para expressar ideias abstratas e complexas, e tanto mais abstratas e complexas quanto mais avanƧam nossas sociedades, nossos estudos, nossos afazeres. Dizer a um aluno que ele deve usar a norma culta para nĆ£o ser vĆtima de preconceito (e só isso!) Ć© omitir que ele estĆ” lĆ” para aprender a usar um instrumento que lhe possibilitarĆ” no futuro ā quando ele for engenheiro, mĆ©dico, cientista, astronauta, pedreiro ou mecĆ¢nico ā a melhor expressĆ£o de suas ideias, a comunicação mais rigorosa de seus pensamentos, de seus dados, de suas descobertas. Em vez de passar a mĆ£o na cabeƧa do ācoitadinhoā, nĆ£o seria mais positivo ensinar a ele que o aprendizado aprofundado da lĆngua faz parte do seu aperfeiƧoamento global como indivĆduo? NĆ£o seria mais interessante descortinar o futuro que o aguarda como sujeito de sua história, como pessoa capaz de dominar e expressar bem todos os seus saberes? Como cidadĆ£o pleno de um paĆs que se quer adiantado? NĆ£o estĆ” na hora de abandonar o paternalismo? O cordialismo Ć brasileira?
TĆ£o estreito quanto ditar regras gramaticais como se elas tivessem baixado com o DecĆ”logo no Sinai Ć© promover verdadeiras cruzadas contra quem defende o respeito Ć s convenƧƵes da lĆngua culta. Porque essa convenção, como todas as outras, foi criada para uniformizar usos e (extremo paradoxo!) facilitar a comunicação. LĆngua Ć© mutĆ”vel? Sem dĆŗvida. Mas nĆ£o tĆ£o mutĆ”vel quanto parecem crer alguns. Porque, como tudo o que estĆ” inscrito na tradição de uma sociedade, ela Ć© fruto da luta entre um impulso de mudanƧa e um impulso de permanĆŖncia. A cada momento, cada forma linguĆstica Ć© a manifestação da resultante dessas duas forƧas, de tal forma que cultuar a mudanƧa Ć© tĆ£o estĆŗpido quanto cultuar a permanĆŖncia.
Mas, como diz Michel Villey[1], āOs produtos de toda dialĆ©tica sĆ£o precĆ”rios: Ć© raro manter-se no meio, na linha de crista, mais tentador Ć© deslizar para um lado ou para outroā. E as pessoas sempre se agarram a um só lado das coisas, porque contemplar os dois lhes dĆ” vertigem.
Adendo. Hoje, um dia depois da postagem acima, me ocorre um adendo. Ć sobre a inverossimilhanƧa de um dos exemplos dados no livro do MEC: āOs livro mais interessante estĆ£o emprestadoā. Quem chega a ponto de achar um livro mais interessante que outro deve ter lido o suficiente para jĆ” nĆ£o cometer essa desconcordĆ¢ncia, se tiver um dia cometido. Por outro lado, quem comete esse tipo de desconcordĆ¢ncia nĆ£o usa āestĆ£oā. Mais verossĆmil seria aĆ um ātĆ£o ou atĆ© um ātĆ”. Enfim, Ć© o tĆpico exemplo forjado em mesa de professor.
