Trago comigo impressões de um filme

26/06/2016

Filme: 

Trago comigo

Direção:

Tata Amaral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vou falar mais das ideias que o filme Trago comigo desperta e menos do trabalho cinematográfico em si, que não me acho competente para abordar. Sobre este só quero fazer uns breves comentários do que percebi nos intérpretes. A interpretação mais marcante do filme é de Carlos Alberto Riccelli. Fiquei muito impressionada com a sensibilidade, a sutileza e a intensidade com que ele transmite sentimentos, com sua expressividade. Essas qualidades já podem ser notadas na primeira cena, quando seu personagem, numa entrevista, precisa responder a umas perguntas sobre o que viveu na ditadura e se sente nervoso, inseguro, com dificuldade talvez para encontrar lembranças nos escaninhos da memória. E aqui quero abrir um parêntese e comparar essa entrevista com as outras, não ficcionais, introduzidas intermitentemente no filme (que é uma mescla de ficção e documentário). Nestas últimas, ao contrário da entrevista ficcional de Riccelli, os entrevistados hesitam pouco, estão calmos, donos de suas memórias, dizendo coisas, aliás, que vêm repetindo à exaustão há vários anos. É como se a narrativa dos entrevistados reais estivesse já estruturada, e a do ator precisasse se estruturar naquela hora. Minha impressão é de que essas diferenças traduzem uma outra, fundamental, que há entre ficção e testemunho: enquanto a primeira se vale de todo um instrumental para criar uma dinâmica interpretativa em torno de um fato, o segundo só se interessa em apresentar o fato bruto. Fecho o parêntese.

 

Mas é pena que a capacidade interpretativa de Riccelli não encontre contrapartida em todo o grupo de jovens que atua a seu lado. Isso cria um desequilíbrio, fazendo que ele sozinho carregue nos ombros toda a dramaticidade da história. Mas, como disse acima, sobre esses aspectos não quero me estender.

 

Passo ao tratamento do tema.

 

O roteiro faz uma abordagem original: um grupo teatral deve representar ou, quem sabe, reconstituir os acontecimentos em torno da prisão do diretor e da morte de uma militante chamada Lia. As cenas “reconstituídas” dispensam o realismo cinematográfico e ficam com o expressionismo teatral. Inclusive as de tortura. E esse realismo é dispensado porque o núcleo da obra, me parece, está em outro lugar. Está no embate entre duas gerações, duas visões de mundo, dois momentos da vida nacional. É uma colisão de interpretações (no sentido teatral e no sentido hermenêutico). E, quando esse núcleo se manifesta, a cena ganha mais vida e o espectador sente o choque com uma intensidade que deixa em segundo plano a história da busca da explicação para a morte de Lia.

 

Nem mesmo a expressão corporal dos jovens de hoje é igual à daquela época. E isso se explicita na cena. Está lá um grupo que ginga sem necessidade, sorri quando não deve, aponta a arma para o companheiro e o chama de mano. A todo momento o diretor precisa corrigir: não, não era desse jeito. Não se dizia “mano”, ou isto não é um filme americano, ou isso é coisa da novela das oito. Porque aquele pessoal da década de 60 estava imbuído de uma missão sobre-humana (explica ele com palavras semelhantes): derrubar uma ditadura sustentada pelo imperialismo americano. E não era o que os cubanos tinham feito? E o exemplo dos vietnamitas, então? Na verdade, em 1969, os festivos precisaram sair de cena. As reuniões eram tensas, as ações eram perigosas. Não havia espaço para brincadeiras, os sorrisos se reduziam ao mínimo; a cada dia que passava, menos e menos sorrisos.

 

A nomenclatura! Grande vitória da ditadura que se traduz nos termos e nas expressões, verdadeiras senhas para a tradução da realidade. Pouco se fala disso hoje, aliás. Quantas teses isso daria? Qual a diferença entre “só a luta armada vence a ditadura” e “só o povo armado derruba a ditadura”? O que há em cada uma dessas frases como expressão de inclusão x exclusão, luta de massas x elitismo? A que distância se estava de uma e de outra? Qual a diferença entre terrorista e guerrilheiro? Qualquer um sabe a diferença, mas a ditadura impôs o termo terrorista, e ele ficou. Qual a diferença entre expropriação e roubo? Quando o diretor explica ao ator que roubo é assaltar para comprar um tênis novo, uma camiseta com dizeres em inglês (que o rapaz está usando), ao passo que a expropriação que eles praticavam tinha o fim de reunir recursos para financiar a revolução, o interlocutor, imbuído da sacralidade da propriedade privada, não entende. Quantos desses equívocos perduraram e não foram reparados? Que distância há entre a “expropriação revolucionária” e o roubo puro e simples? Em que momento um pode se converter no outro? Que herança nos legaram essas nuances não percebidas? Por que até agora ninguém disse que alguns dos últimos episódios daquilo que se convenciona chamar de corrupção tem características diferentes da corrupção clássica e, do ponto de vista de quem a pratica, tem muito a ver com a tal “expropriação”: seu objetivo não é enriquecer pessoas, mas sustentar uma estrutura partidária. Mas será possível dividir as coisas com clareza? Essas discussões o filme não traz, mas sugere. Essas questões são elos a ligarem nossa época àquela e, a meu ver, talvez merecessem outro filme.

 

Em que momento começou a enorme discrepância entre esta juventude e aquela? Essa pergunta tem uma razão de ser: a resposta não é intuitiva. A mudança não foi gradual, como é o costume das mudanças. Foi abrupta. O grande divisor se deu na década de 1970. Quando essa década terminou, pouco restava do espírito que havia predominado até sua metade. A utopia estava morta. Tinha se finado com as centenas de jovens assassinados pela ditadura. Os sobreviventes ou estavam fora do País ou se defendiam como podiam na luta pelo sustento, submetidos a empregos burocráticos, bombardeados pela vitória das pautas liberais impostas pelos grandes patrões internacionais. Não foram poucos os que sucumbiram à droga (quase de todo ausente até o final da década de 60), aquela mesma droga contra a qual se abria uma guerra sem trégua, não foram poucos os que se renderam à deterioração de uma sociedade que dez anos antes parecia tão cheia de promessas. Foi aí a grande ruptura, facilitada e sustentada pela crescente indigência da educação pública. O resto foi mero desdobramento.

 

Não, o filme não diz isso. Mas suscita essa reflexão.

 

Em certo momento, os atores questionam o diretor: e a periferia, ninguém da periferia entre os revolucionários? E os operários? Não, de fato, não havia a periferia, e o operariado também não estava lá. Mas sobre a periferia, é preciso lembrar, lembrar... O que era a periferia na fase anterior à “guerra às drogas”? Periferia e operariado se confundiam. O êxodo rural ainda não tinha atingido as dimensões que atingiu depois. Os desterrados ainda não formavam aquele exército de desajustados à metrópole que veio a se constituir mais tarde. Com essa pergunta o diretor se confunde, responde rapidamente, como quem quer fugir do assunto. Na verdade, essa discussão exigiria outro filme, outra obra. Como entender uma cidade onde não havia assaltos, num momento em que as enormes contradições que nos atormentam hoje ainda estavam sendo gestadas, em que os chamados bandidos começavam, só começavam, a conhecer a sanha daquilo que era chamado então de “esquadrão da morte” e depois continuou existindo com outros nomes? Quantas mazelas a ditadura nos legou?

 

Quem não viveu esse momento de ruptura não consegue dimensionar o que poderia ter sido este País sem o trauma da força bruta, do Estado autoritário e totalitário, sem a mazela da tortura, sem o flagelo do ódio ao povo, sem a morte de tantos idealistas.

 

Nada disso está explícito no filme, mas tudo isso ele traz de volta à mente daqueles que sonharam com outro Brasil.

 

Para terminar, umas considerações sobre a tarja preta na boca dos entrevistados reais, quando citam os nomes dos torturadores. Não sei se a sutileza da coisa está sendo inteiramente percebida. No fim, uma legenda explica que aquelas pessoas não tinham sido julgadas. Mensagem: contra quem não foi julgado não se há de lançar acusação pública. Claro. Ocorre que eles nunca serão julgados, porque a lei de anistia assim impôs, e o nome deles continua e continuará censurado para todo o sempre. Como no tempo da censura institucionalizada.

 

Parabéns a Tata Amaral, diretora do filme.

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