A casa das belas adormecidas, ou tentando uma brecha na muralha do hermetismo

17/01/2016

A casa das belas adormecidas

Yasunaru Kawabata

Edit. Estação Liberdade, 2006

Trad. Meiko Shimon

 

 

Advertência: aqui esmiúço toda a trama da obra. A quem ainda não tiver lido o livro e não quiser conhecer já o seu desfecho aconselho deixar a leitura deste artigo para depois. 

 

Li três livros de Kawabata: dois há muitíssimo tempo (Senbazuru  [não me lembro com que título em português] e O país das neves) e o terceiro por estes dias, A casa das belas adormecidas. 

 

Não é fácil falar de um autor que conhecemos pouco e que escreveu numa língua totalmente desconhecida para nós. O que vou tentar aqui é mais um registro de leitura para evitar que minhas impressões se percam para sempre daqui a algum tempo.

 

O argumento, em linhas gerais, é o seguinte: jovens beldades jazem nuas num quarto, profundamente adormecidas, para que a seu lado se deite o cliente idoso do momento. Isso é feito numa casa expressamente destinada a esse fim, cuidada por uma mulher de relativa idade, que recebe os clientes e lhes serve chá antes que se deitem e depois que acordam. O protagonista é um homem de 67 anos (Eguchi), que faz cinco visitas à casa. Nessas visitas, conhece seis jovens adormecidas.

 

Em termos de intenções metafóricas do enredo, duas coisas me parecem óbvias: 1) a analogia com a história ocidental da bela adormecida; 2) relação entre as jovens adormecidas e as mulheres da vida de Eguchi.

 

Começo pela analogia com a história de fadas ocidental. Não conheço Kawabata a ponto de afirmar que ele buscou essa analogia propositadamente. Mas ela está ali para ser colhida: uma substância desconhecida é ministrada às jovens beldades por uma mulher de meia idade (a fada alijada e o fuso envenado?), para que elas durmam tão profundamente que nunca possam ser acordadas (a não ser por um príncipe encantado?). Eguchi passa toda uma noite ao lado de cada uma delas, mas, de fato, nenhuma acorda. O despertar das jovens só ocorre depois que ele se ausenta. Portanto, a analogia nesse ponto é antipodal, ou seja, Eguchi é o antípoda do príncipe encantado; é um velho como tantos outros frequentadores daquela casa, que perderam a potência sexual e ali vão "para ter belos sonhos", e não para acordar a adormecida.

 

E quais são os sonhos que Eguchi tem naquelas noites? Vejamos as relações entre a adormecida e as reações de Eguchi, noite por noite.

 

A primeira jovem, da primeira noite, é marcada por forte sensação olfativa: cheiro de leite. A audição é sensibilizada pelo rumor das ondas. As lembranças de Eguchi são todas relativas a bebês: os netos (ficamos sabendo que ele tem três filhas, que por sua vez têm filhos), a filha caçula que ele segurou no colo quando era bebê, antes de ir se encontrar com uma amante que o enxota porque ele está cheirando a leite. Há também a recordação de uma namorada, um amor malogrado antes do casamento, que, como se vê no fim do episódio, reaparece com um bebê (menina!) nas costas quando os dois se reencontram muitos anos depois, e ele desconfia ser filha dele, apesar das negativas da mulher. Importante, ao que tudo indica, a lembrança de que certa vez ele arrancou sangue do bico do peito dela (leite transmudado em sangue ou vice-versa?). A noite termina com um pesadelo: sua filha dá à luz um bebê disforme.

 

A segunda jovem (na segunda noite), conforme diz a anfitriã, é "mais experiente". Tem odor quente, usa batom. Sensação auditiva: o som da chuva noturna sobre o mar sereno. Como ela é "mais experiente" e "parece coquete", ele pensa em quebrar o tabu da casa (de não manter relações com as moças), mas recua quando percebe que ela é virgem. Digno de nota o trecho em que se diz que "o cheiro da pele dela penetrava-lhe os globos oculares e lhe proporcionava novas e fartas fantasias": peônias de inverno, o templo de Yamato, aonde ia frequentemente com as filhas. E então se lembra de novo da filha caçula, da viagem que fizeram os dois antes que ela se casasse, das vicissitudes pelas quais ela tinha passado. Tudo isso depois que ele se dá conta do sentimento paternal provocado pela suposição das vicissitudes que a bela adormecida haveria de passar por ser coquete (como a filha, presume-se).

 

A terceira adormecida (na terceira noite) é uma menina miúda: tranças desmanchadas. Dorme como uma morta, e isso lhe traz à lembrança uma amante casada que ele teve em Kobe: ela usou essa frase quando acordou no hotel, ou seja, tinha dormido como uma morta. Separaram-se, e ele fantasia, ali deitado, que ela tivera um filho depois de se reencontrar com o marido. E então fala do filho que a filha caçula teve. Também se lembra de uma prostituta mais nova ainda que a adormecida (tinha 14 anos), que o atendeu apressada porque queria ir a um festival, e ele a dispensou. Pensa em maldades, no poder que tem sobre as moças adormecidas, poder virtual que ele poderia concretizar. Ela encosta a testa nos olhos dele, e ele vê flechas douradas que na ponta têm jacintos violáceos.

 

A quarta se destaca por ter o corpo extremamente quente. Lá fora, há neve e chuva. O cheiro é de juventude, seus seios são amplos, e ela talvez tenha um andar desajeitado. É sensual, e o contorno da testa lembra o monte Fuji. Sente-se culpado. Acha-se depravado. Pensa em suicídio. Tem a visão de um bando de borboletas (lembra-se de novo da filha caçula). Dorme mais do que deveria, a mulher precisa chamá-lo duas vezes. Não teve sonhos.

 

Na quinta noite ele chega à casa sabendo que naquela semana ali morrera um idoso, e que o morto havia sido transportado para outro local, pois a casa precisava ser preservada. O ambiente está frio, ele fala de morte. Dessa vez, as moças são duas. A primeira tem pele escura e odor nas axilas. Não parece japonesa. Está descoberta e, apesar do frio, tem suor na testa. Ele o enxuga com um lenço, não gosta do cheiro e atira o lenço no chão. Depois o pega de volta para retirar o batom dos lábios dela. Lembra-se então de um beijo trocado com uma jovem mais de 40 anos antes, do lenço com que limpou seus próprios lábios. Aproxima-se da adormecida, que o empurra, ele cai para fora do leito. Então se deita de novo e se aproxima da segunda moça, acomoda-se ao seu lado. A primeira luta com o cobertor elétrico, ele o desliga. Percebe que os batimentos cardíacos dela são fracos. Vira-se para o outro lado, sente a pele oleosa dela grudada às suas costas. Pensa então em quebrar o tabu da casa e manter relações com a segunda moça: "Peço-lhe perdão. Será a última mulher da minha vida". Mas "perde as forças" e desiste. Quer dormir profundamente como elas. Tenta se levantar e ir pedir o mesmo remédio à anfitriã, mas não o faz. Então abraça as duas moças e se lembra da mãe. Ocorre-lhe então que a mãe foi a primeira mulher de sua vida, mãe que morreu soltando sangue pela boca e pelas narinas. Mas a primeira mulher da sua vida não teria sido a esposa? Continua sentindo a pele oleosa da moça às suas costas. Pega no sono, tem pesadelos com a viagem de volta da lua de mel: a mãe lhe abre a porta, há flores pela casa toda, cheiro de pargo assado,  a esposa se junta a ele, vão ver as flores, uma gota de sangue pinga de uma daquelas flores. Ele acorda, a jovem da pele oleosa está morta.

 

Não é fácil estabelecer elos nesse emaranhado de alegorias. Sobretudo quando se sabe que o texto foi escrito numa língua que se expressa pela escrita ideográfica, tão prenhe de possibilidades simbólicas nem sempre transferíveis na tradução. Aqui vou tentar visualizar os elos mais óbvios.

 

As jovens adormecidas são figuras que ocasionam o despertar de lembranças de outras mulheres na vida do protagonista. Essas mulheres são, por ordem de aparição: a filha caçula, presença constante em todas as visitas, com exceção apenas da última; a amante que o enxota quando sente cheiro de bebê; a amante da juventude; a amante de Kobe; a prostituta de 14 anos; a mãe; a esposa. Há também uma passagem rápida de uma mulher casada que fala de todos os homens que a beijaram, mas essa mulher não pertence "à sua vida". Nessa lista há oito mulheres, sem contar as outras duas filhas que são apenas mencionadas. No início acreditei poder distinguir uma relação numérica entre as seis adormecidas e as seis mulheres mais importantes de sua vida: as três filhas, a mãe, a esposa e a amante da juventude. É uma hipótese, mas não me parece muito defensável.

 

A presença da filha caçula não pode deixar de ser levada em conta. Como disse acima, ela aparece em todas as noites, exceto na última. No entanto, quando ela se ausenta de suas lembranças, aparece a relação edipiana por excelência: a mãe como primeira mulher de sua vida. A filha seria um "sucedâneo"? Quando o verdadeiro objeto do desejo de Eguchi entra em cena ela deixa de fazer sentido?

 

Também me parece forte a relação entre a adormecida que morre e sua mãe. A morte daquela "mãe" o faz despertar de vez (resolvendo a culpa do incesto?). São duas mortes postas em paralelo, no mesmo capítulo. Aquela jovem o rejeita expressamente, empurra-o para longe, para "fora do leito". O pingo de sangue que cai da flor em seu sonho e o pingo de sangue que sai do peito machucado da amante que lhe fora negada terão relação com a amamentação, com o sugar violento de um seio proibido? 

 

Há farto material para seguir adiante, mas não quero correr o risco de exagerar nas ilações.  Porque, por mais que eu me aprofunde nesses nexos, sinto que poderia ficar indefinidamente a procurá-los e a achá-los (ou não), enquanto eles insistiriam em deslizar entre meus dedos como sentidos apenas entremostrados de algum sonho. 

 

Como me disse uma jovem editora: às vezes essas coisas que estão por trás do texto não são percebidas conscientemente, mas a presença delas é intuída, e isso faz o leitor gostar do texto sem saber por quê. Talvez seja aqui o caso.

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