O sonho de ser bela, recatada e do lar

21/04/2016

 

 

 

O humor nas redes sociais é cáustico, implacável. Escolhido o alvo do(s) dia(s), abre-se uma verdadeira competição de piadas. O último  alvo foi o artigo da Veja sobre Marcela Temer. Com o hashtag #BelaRecatadaEDoLar (que reproduz o título do artigo da famigerada revista), as redes foram invadidas por fotos e fotos de mulheres consideradas a antítese da moça, não necessariamente em beleza, mas infalivelmente em visão da política, da sociedade e da sexualidade. 

 

A maioria das manifestações que li (algumas muito inteligentes, outras apenas iradas) girou em torno do papel da mulher na sociedade e do machismo detectável no tal artigo. Todas as manifestações, aliás, estavam cheias de razão. Mas poucas foram além dessas questões normalmente abordadas pelo feminismo. A meu ver, no artigo da Veja, o verdadeiro busílis está em se usar um estereótipo tradicionalista de mulher para enaltecer um político que se prepara para assaltar o poder. Exaltando-se a mulher que quer ser, que gosta de ser, acessório de seu homem, glorifica-se indiretamente o político que, caso se submetesse ao crivo das urnas, não ganharia mais de 2% dos votos.

 

O objetivo do artigo, portanto, está fora do explicitado, o que não é novidade. No caso, usa-se uma narrativa "doméstica" para, nas entrelinhas, falar de política. E, se o artigo faz isso, é porque está se dirigindo a um público específico, pois, é claro, poderia falar de política simplesmente falando de política. O que é feito em outras seções da revista. Nesta, o público é outro. É o público do consultório, do salão de cabeleireiro, da sala de espera em geral. Aquele público que não lê, só folheia, parando apenas no que é visualmente atraente, público que se extasia com as fotos feéricas de Caras, que copia vestidos e penteados de atrizes de novela, que baba com as reportagens sobre a família real inglesa. É um público feminino. Lamento, amigas, mas é um público feminino que (digo isso com dor no coração) é amplo, muito amplo, é legião. É o público que gosta de "gente bonita" (quem já não ouviu essa expressão?).  A panaquice do conteúdo do artigo é monumental, mas oferece alimento político para quem vê na estética do nosso tempo e do nosso lugar a suprema manifestação do belo e do bom.

 

Mas não é só isso. Para esse público, Marcela Temer, oportunamente decantada pelos veículos de comunicação, haverá de encarnar, com sua beleza indubitável (segundo os padrões da cultura ocidental branca), um mundo novo que se descortina, avesso do mundo da matrona que, com uma retórica tantas vezes arrevesada, fala aos quatro ventos coisas incompreensíveis ou assustadoras ou irritantes. Marcela Temer precisa ser transformada, com urgência, no símbolo de um mundo antípoda do mundo da velhota loquaz. Ela é a bela e jovem mulher que cala, limitando-se a emitir luz para que seu homem brilhe (e haja luz para fazer Michel Temer brilhar!). Marcela Temer cala por ser recatada, e não por não ter o que dizer. E o que Marcela Temer terá para dizer? Isso ela nunca haverá de dizer, porque, se disser, quebrará o encanto. O que a mulher encantada tem para dizer, ela só deve dizer ao seu homem. 

 

Por enquanto (só por enquanto) a paz familiar dos Temer está sendo perturbada pela "confusão no país", pela "convulsão política que vive o país", pelos " ânimos acirrados no país" (três vezes, num artiguete de uma página, se alude à agitação política "do país"). Mas, embora o artigo não afirme explicitamente, o seu autor deve ter certeza de que em breve a paz reinará na família Temer (e no "país", por óbvio), e então, quem sabe, o casal poderá desfrutar de tranquilidade para espalhar aos quatro cantos o seu infinito amor, sem ter de se confinar em caríssimos bares blindados que precisam ser esvaziados do público comum para poderem acolher "Mar" e "Mi" em seu idílio (que fofo!).  Longe das multidões suadas, se é que isso não lembra outro personagem.

 

Marcela Temer, enfim, é um sonho. Sonho que está por um fio de se tornar realidade. Para se tornar realidade, Marcela Temer precisa se tornar primeira dama, e para isso é preciso que Michel Temer suba a rampa. Mas, para que Michel Temer suba placidamente a rampa, é preciso, entre outras coisas, seduzir as tantas mulheres que foram às ruas pintadas de verde e amarelo, não para pedir Temer, mas para despedir Dilma. E essas mulheres, não tão caladas nem recatadas, deslumbradas pela visão feérica de Marcela Temer, haverão de convencer seus homens de que Temer, o varão, é a solução para os nossos males.

 

Marcela Temer é muito mais que uma mulher bonita, Marcela Temer é o sonho da direita nacional que (até que enfim!) vai ligar a tevê e babar diante de um  conto de fadas. Com um pouco mais de esforço na Paulista e de ajuda na mídia, o casal Temer um dia poderá até ganhar uma coroa.

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