E o rei discursou para as mulheres

09/03/2017

 

 

Era uma vez um reino encantado. Esse reino, como todo reino que se preze, tinha um rei. E esse rei um dia fez um discurso. Sobre as mulheres. Para comemorar o dia delas, porque naquele reino todos os tipos de gente que não tinham vez 364 dias do ano ganhavam um dia quando se dizia que tinham vez.

 

Pois bem, aí o rei disse que a mulher ainda era tratada como se fosse uma figura de segundo grau, quando na verdade deveria ocupar o primeiro grau em todas as sociedades. Ouvindo isso, alguns reinóis não entenderam o que significaria exatamente primeiro grau. Uns, menos dotados intelectualmente, até aventaram aquela classificação das queimaduras, sendo a de primeiro grau a também chamada superficial, a que fica só na epiderme. Mas não devia ser a esse grau de superficialidade que o rei se referia, claro, afinal ele não era médico. Os mais otimistas imaginaram que ele estivesse querendo dizer que a mulher deveria ocupar uma posição de primeiro plano, tipo sair do térreo e ir para o primeiro andar, ou sair da coxia, de trás dos tabiques do gineceu, e ir para a frente da cena, para o proscênio, digamos. Os que entenderam assim até bateram palmas. Mas outros continuaram céticos, desconfiados de que o sentido seria outro. Por uma questão de coerência. Porque como é que o rei ia querer dizer isso se logo depois ele largava mão do tal primeiro grau e dizia que só sabia de mulher o que lhe ensinava a sua própria mulher? E o que lhe ensinava ela? Ela lhe ensinava que a mulher faz muito pela casa, pelo lar, pelos filhos... etc. Então ela continuava no gineceu! Esqueçam aquela história de primeiro grau — era como se ele dissesse. Ou será que ele estava falando do sistema educacional do reino? Ah, devia ser isso: a mulher deveria ficar no primeiro grau. Nada de ir para o segundo.

 

Entendido isso, finalmente, ficava outra dúvida. Como é que ele, sendo rei, precisava da esposa para lhe falar da importância da mulher na sua sociedade se a sua própria monarquia tinha um órgão de pesquisas que lhe punha diante dos olhos todos os números sobre a posição da mulher no dito cujo Reino? Esse órgão dizia, por exemplo, que 17 anos antes do seu discurso 24,9% dos 44,8 milhões de lares do Reino tinham a mulher como cabeça de família, e que dez anos depois esses números tinham subido espantosamente: 38,7% dos 57,3 milhões de lares. E que em mais de 42% desses lares a mulher vivia com os filhos, sem marido ou companheiro.

 

Mas de que valerão esses números perto da opinião de uma rainha? — argumentavam os mais ciosos.

 

Bem deviam saber essas mulheres solitárias — cismavam os mais caridosos — quão inestimável seria a colaboração masculina que elas não tinham... E onde estavam esses homens? — perguntavam os curiosos. Os paradeiros devem ser incontáveis, nem convém aventurar-se em conjecturas, porque aí já se entra no campo da ficção, aquela que diz a verdade falando mentiras — ponderavam os mais eruditos. É que o rei pertence a uma geração meio antiquada, não terá ele compreendido a importância da figura masculina na formação dos filhos, coisa desculpável porque, afinal, os varões vinham se eximindo desse papel havia milênios, não seria um reizinho qualquer que comungaria visão tão revolucionária como essa, de dizer que a presença do homem é importante na formação da prole — atalhavam os mais irônicos.

 

Mas voltemos ao discurso.

 

Disse ele a certa altura que, se a sociedade ia bem “de alguma maneira”, era porque as mulheres cuidavam dos filhos. Ora, não são tão otimistas os anais. Rezam estes que no Reino eram espantosos os índices de criminalidade e violência que assolavam, de preferência, as suas classes mais baixas. Não seria então porque a tantos daqueles lares faltava alguma coisa, como por exemplo uma presença masculina digna, com um emprego decente, uma escolaridade suficiente e um salário que prestasse? Não seria porque tantas daquelas mulheres não estavam de fato em seus lares, já que precisavam estar fora deles, ganhando o pão da prole que daí a pouco perderiam para o crime ou para as balas dos esbirros do rei? Ou seria por tudo isso e mais um monte de outras coisas, como por exemplo a omissão secular do Reino e de sua aristocracia dominante na real emancipação de seu povo?

 

Pois era dos anais que tiravam essas ilações os reinóis mais afoitos. E assim, enquanto o rei achava que a sua sociedade ia bem “de alguma maneira”, estes achavam que ela ia mal de todas as maneiras.

 

Por tudo isso a muitos pareceu uma tremenda asneira ele dizer que tinha sido grande vantagem a mulher ter começado finalmente a votar muitos anos depois que os homens já votavam, e isso após briga renhida. Porque — diziam sempre os afoitos — cantar essa vitória passada significava fechar os olhos para as derrotas presentes e futuras. Além disso, o espaço conquistado pelas mulheres indo às urnas não devia ter sido assim tão significativo, já que elas continuavam restritas ao lar e ao supermercado, como dizia o próprio rei... enfim, era um discurso sem pé nem cabeça que se contradizia de cabo a rabo, e em torno dele se deliciavam todos os reinóis que ainda conseguiam rir.

 

Afinal, o que dizem os anais a respeito? Dizem que o espaço delas de fato se alargou, mas as responsabilidades quadruplicaram, os salários continuaram mais baixos que os dos homens com o mesmo grau (olha o grau aí de novo) de responsabilidade e escolaridade. Isso para as que tinham escolaridade, claro. Porque existiam as outras, as sem escolaridade. E o que faziam estas? Estas sempre tinham trabalhado, muito antes da tal emancipação das urnas. Talvez o rei não soubesse que a reinol operária já trabalhava nas fábricas quando a reinol de classe média ainda nem tinha começado a pensar ou a ter coragem de pensar em sair de casa para ganhar o sustento e deixar de depender do dinheiro do marido. Muitas daquelas eram chamadas de imigrantes, pois tinham vindo de outras terras ao lado dos maridos, dos filhos e das filhas, com quem trabalhavam de sol a sol para o engrandecimento do Reino, sem que a aristocracia reinante jamais tivesse dado, às de fora ou às de dentro, o real valor pagando-lhes o devido valor em reais. Talvez o rei não soubesse que aquelas ancestrais forasteiras a partir dos 14 começavam a marchar todas as manhãs para as fábricas muitas décadas antes que outras reinóis mais ávidas de liberdade começassem a marchar pelas ruas em busca de certos direitos que a inúmeros homens do Reino haveriam de parecer um abuso. Essas, melhor que quaisquer outras, deviam saber que era preciso reconhecer “a posição da mulher no conserto (sic) nacional”. Péssimos revisores tinha esse rei.

 

Talvez não por acaso era nos lares mais pobres, com renda per capita de até meio salário mínimo, que a proporção de mulheres chefiando subia para 40,8% e chegava a 46,4% nas áreas urbanas. Porcentagem que ia diminuindo à medida que se elevava a renda. Coisas de que a rainha provavelmente nem desconfiava.

 

Mas de pouco adiantava dizerem “o rei está míope!” Ele continuava impávido seu discurso. Até que aguçou mais e mais os olhos para ler o seguinte: “a gente vê em muitas reportagens, das mais variadas, como a mulher hoje ocupa um espaço executivo de grande relevância”. Como assim, reportagens? — perguntaram espantados os mais críticos. Pois não é que está nos anais que pouco tempo antes ele tinha destituído uma — pasmem! — mulher que ocupava, justamente, um posto executivo ao qual tinha chegado por via das próprias urnas pelas quais ele parecia ter tanto apreço logo ali em cima?

 

Coerência não era seu forte.

 

 

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