Maria Sá apoia os cotovelos na cômoda. Nas mãos, aberto, um papel amarelado, a certidão do seu casamento. Mal acredita. O nome datilografado na segunda linha ela soletra muda, devagar, olhar fixo, buscando, sem ter, algum sentimento de conluio com o próprio nome: Maria Sabina dos Santos. Porque é dela aquele nome, sim é, como sempre se afirmou e está naquela folha, segura agora por mão tisnada, magra, seca, dedos turrões. O resto é silêncio aqui dentro, tirando os barulhos que a natureza manda pela janela, tirando os sons que ainda ecoam, parece que vindos das frinchas dos móveis e das trincas das paredes, idos sons. Entre eles, as sobras da voz dura da filha, dizendo uns poucos minutos antes — Mãe, pega a certidão que o pai morreu. Já nem se lembra Maria Sá de não ter entendido que certidão era aquela, de ter respondido perguntando — Que certidão-que-o-pai-morreu?, e de logo em cima a dureza quase gritona da filha ter atalhado — A certidão de casamento, só pode! O pai morreu, mãe!

 

Maria Sá não perguntou de quê. O taxativo da ordem não deixava beiradas. A quina cortante da fala daquela filha rebarbativa Maria Sá conhecia desde sempre, ela que havia parido aquele aleijão atormentado, capaz de vagar noite inteira pela casa, espalhando no ar o contratempo de passos coxos — uma perna mais curta que a outra, explicava ela às vizinhas, às parentas, com a filha-ainda-bebê no colo. E o marido corrigia: uma mais comprida que a outra.

 

Soletra pela terceira vez: Maria Sabina dos Santos. Veio o Sá de Sabina, isso é certo. Sá, portanto, não é sobrenome, embora pareça. Veio de Sabina não se sabe até hoje como, de quem partiu a ideia, quem julgou Sabina comprido demais e quis abreviar, quem gostou da invenção, quem deu continuidade, quem, quem, como se tudo no mundo precisasse de um quem como sujeito. De sorte que o Sabina acabou sumindo dos usos e só ficou nos papéis. Era o nome completo Maria Sabina Benevides, nos devidos documentos, mas só nestes, antes de se casar, tendo sido sempre preciso explicar aos outros que Sá no caso não era sobrenome. Depois, emprestado o do marido, sem mais outro, apagou-se o do pai nos usos e nos papéis. A própria Maria já teria esquecido que se chamava Benevides, não fosse a lembrança dos lábios da mãe gritando-gritando Benevides-Benevides-por-que-tiraram?, com uma raiva sem tamanho, como se quisesse que Benevides ficasse ferreteado no éter para a eternidade, quando descobriu que tinham pura e simplesmente riscado o nome do pai da noiva do nome de casada da filha. Gritava com a força de todas as fúrias, sem pensar que ela mesma era só Benevides do marido e mais nada. Mas o tempo pôs tudo no lugar, como é ofício dele, pois o Santos do marido de Maria Sá, de tão postiço, na vida não pegou, só ficou morto no papel, depois de cair no poço do esquecimento, despregado decerto do gancho d-o-s pelo qual se dependurava cheio de dobradiças ao resto do nome. Assim, para o mundo Maria continuou sendo Sá, e o mundo era a gentarada da vizinhança, mais o povoado de Poções, mais os parentes de Barra do Choça, mais os de Planalto, sem contar os conhecidos de Vitória da Conquista.

 

Está, pois, Maria Sá com os cotovelos sobre a cômoda enquanto tudo isso se pensa na cabeça dela, quando a filha entra falando, brusca-bruscamente, provocando na mãe um estremeção, não lembrada de que ela odeia ser assustada:

 

— Vou levar os documentos, providenciar o enterro.

 

Maria Sá, virando-se, vê entrar atrás da filha a primeira-sobrinha-mãe-solteira-da-família (Maria Sá ainda não conseguiu perdoar o implantezinho sem nome do pai, mas a sobrinha é tão meiga...), que veio de Vitória portar a notícia, vê que ela entra já de braços abertos (— Oi, tia, como vai? Deus há de lhe dar consolo...), e só então, no calor do abraço, Maria arrisca a pergunta: — Mas vai ser enterrado aqui? Morreu aqui, foi? A filha responde — Como podia ter morrido aqui, mãe, se não morava aqui, oxe!, — já pegando a certidão da mão da mãe, enquanto a sobrinha faz a gentileza de explicar: — Morreu em São Paulo, tia, estão trazendo o corpo para cá, de kombi, imagine, Jônatas e Natã é que vêm trazendo, num caixão de madeira, imagine, que falta de juízo, não quiseram enterrar lá, porque o tio não queria ser enterrado lá de jeito nenhum, queria ser enterrado com a mãe dele aqui, a gente vai falar com o pastor, ver se ele ajuda, fazer de conta que morreu aqui nesta casa... não tem nem certidão de óbito, imagine...

 

E, enquanto Maria fica imaginando, as duas saem e atravessam o jardim. Maria as vê da janela, na mão da filha já não está o papel amarelado da certidão, decerto na bolsa, agora, arrancado que foi quinze minutos atrás da placidez de um fundo de gaveta, onde tinha ficado tantos anos com agulhas, retroses, uma bíblia desencadernada, fotos dos três filhos, três tachinhas entortadas, um par de moedas antigas... Tão raro sair de lá! Inversamente proporcionais aos números da idade são os das solenidades burocráticas alimentadas a documentos pessoais que só nascem na juventude. Agora lá se vai, quem sabe de vez, aquele papel flácido, perdida a rijeza viril do passado, material molambento... os rasgos dele e as rugas da cara, paralelos ao longo da vida.

 

Maria Sá, portanto, não pergunta de quê, nem quer saber, porque coisa do marido ela não quer saber faz mais de vinte anos, se bem que a curiosidade se domicilia agora na sua cachola, mas, não tendo resposta, é despejada, enquanto pela janela as duas fecham o portão, o sol ilumina do alto, entre folhas, um tronco deitado debaixo da mangueira. Aquém de tudo, o caixilho da janela como moldura e no parapeito Loura, a maitaca de asas cortadas, passeando o vozear.

 

O rosto de Maria Sá se ilumina, quase um sorriso — Loura, Loura —, o dedo de Maria se espicha, Loura sobe nele e dele vai ao braço, e deste ao ombro, que é parada obrigatória, e dali começa a bicar a orelha da dona, que se encolhe sorrindo — Loura, Loura, faz cócega na mãe, não, faz... Então o olhar de Maria cai no tronco deitado, e na memória do ouvido, chegando do nada, soa a voz do marido sentado no tronco — Voltei pra rever os amigos que um dia... —, cantando num passado que já nem tem nome de mês nem número de ano, acompanhado por Zé, vizinho violeiro e alcoólatra. Soava a voz do marido solta pela boca de Nelson Gonçalves. Maria não gostava. Tinha medo da voz dele cantando, porque não era dele a voz que cantava, porque decerto um avejão tomava conta da garganta dele naquelas horas. Graças a Deus com o tempo parou de cantar, Zé se mudou acompanhado do violão. Já não cantava quando passou a ficar mais tempo em Vitória, ganhando o sustento na construção civil. Na verdade, a semana toda. Voltava aos sábados:

 

— Homem, não deite assim na minha colcha do Ceará.

 

— E vou deitar onde, mulher! Não posso deitar na minha cama?

 

— Tome banho antes pelo menos.

 

E só não se arrastava um bate-boca sem fim porque ele deitava e dormia. Para cada cinco dias sem se verem, dois de estranhamento, para Maria o inferno era no sábado. A mesma colcha na mesma cama, que ela punha, sim punha e por que não haveria de pôr? Verdadeira obra de arte aquela colcha. Ele chegava sujo de Vitória, almoçava e tinha sono. Bem podia se deitar na rede do terraço, se sentar no sofá da sala, se espichar debaixo da mangueira ali no jardim, mas não, ia se escarranchar barbudo, suado, empoeirado, fedido, na colcha bordada do Ceará que ela tinha dia certo para esticar, olhar, admirar. Porque assim tinha aprendido de dona Maria Gumercinda Benevides, que se autodenominava sua mãe. Não gostava esta do genro, aquele que vem vindo pela estrada, debaixo desse sol que incendeia o mundo, esse sol e nenhum outro, porque o sol é um só dividido por todos os lugares, isso ela tinha aprendido. Vem ele vindo por um mundo incendiado, enfurnado na traseira de uma kombi, estrada comprida, interminável, quando será mesmo que chega? A mãe. Quando Maria Sá se queixava, a mãe dizia: — Quem com cães se deita, com pulgas se levanta!, e ela, por não entender, silenciava. Não havia jeito. A tarde do sábado ele passava em cima da colcha. Acordava lá pelas cinco, barbudo, suor e poeira deixados na colcha, estremunhado, camisa para fora da calça. Só então ia para o banheiro, descalço, pedindo toalha, e — fazia de propósito — depois do banho é que ia para a rede. Às nove da noite ela tirava a colcha, não punha no domingo porque já estava suja, o fim de semana findava e, começando a semana seguinte, a colcha ia sendo lavada, passada e engomada, ia voltando ao armário e, chegado o sábado, à cama. Então ele aparecia pouco antes do almoço, comia, sentia sono...  De modo que o passo do tempo, para Maria Sá, o que marcava era a colcha do Ceará. E, saindo da cama a colcha às nove da noite do sábado, Maria Sá já estava extenuada, desalentada. Então ficava parada diante da janela, olhando a noite lá fora, querendo escapar pelo meio das ripas do portão. Mas não dava, não podia, porque a voz dele vinha do quarto, mandona: — ... passei uma semana sem mulher, vê se vem logo, ou vai querer que eu arranje outra? — Ela entrava no quarto, ele olhava para ela com cobiça de homem nos olhos, mas cobiça soberba, desdenhosa, que a deixava azeda, com um frio mesquinho lhe percorrendo a espinha: ela não queria, não queria, mas deitava, porque assim havia de ser, deitava e por cima dela deitava-se todo aquele cheiro de homem que não prezava nada, que lhe emporcalhava a colcha... O cheiro que ele tinha. O cheiro dele ela nunca há de esquecer, e a lembrança é tão forte, tão forte, que a lufada de vento que move as folhas da mangueira parece trazer da estrada aquele bodum, e ela, enjoada, puxa as folhas da janela: fechar. Loura enche a penumbra de assobios, Maria Sá vai para o sofá, Loura passa de seu ombro ao encosto. Há de sumir esse fartum que aquela lembrança de marido lhe devolve ao nariz. Mas não some, grudada que está em suas membranas desde sempre aquela recendência de manteiga rança, suor e esperma. Maria Sá se engana: o cheiro não vem de fora, vem de dentro... lá fora ele há de ter mais espaço para se espalhar: ela vai para a rede do terraço.

 

Quer dizer então que está voltando na traseira de uma kombi. Mas não é assim que se carrega defunto, essas coisas ligadas à vida e à morte são sempre sérias, requerem papel passado com assinaturas e carimbos, o dedo da autoridade. Como é que dois filhos metem um pai morto num caixão e saem pela estrada, rodando dia inteiro debaixo de um sol padrasto? Haverão, Jônatas e Natã, de ser parados pelos guardas rodoviários que vão querer ver o que é que há dentro de um caixão de defunto ali atrás, porque é claro que um caixão de defunto numa kombi vindo de São Paulo sem documentos, debaixo do sol incandescente, não há de ter dentro um defunto, há de ter dentro maconha, é mais que certo, e, enquanto um dos guardas vai abrir o caixão, com certeza absoluta de encontrar uns duzentos quilos da droga, o outro vai obrigando Jônatas e Natã a encostar numa parede qualquer, pois sempre há de haver parede para se encostar um traste suspeito com uma arma apontada pelas costas, e então, nesse momento, o primeiro guarda vai abrir o caixão e o que vê lá dentro não é a maconha mais que certa, e sim um defunto. Ah, mas o guarda vai ficar muito zangado, porque não era o que ele esperava encontrar ali, e sempre que alguém deixa de encontrar o que é mais que certo que vai encontrar num certo lugar, o mundo inteiro fica duvidoso, todo próximo é suspeito, a vida vira nada. Por isso o guarda, zonzo de raiva, vai prender os dois, dar um fim ao defunto para poder vasculhar o caixão em busca de fundo falso, livrando Maria Sá daquele retorno em má hora.

 

Quer dizer então que está voltando na traseira de uma kombi. Como pode voltar em traseira de kombi, sem eira nem beira, quem se gabava de no futuro ir embora para São Paulo, terra onde faz tanto frio que sai fumaça da boca da gente, pois só onde faz muito frio é que isso acontece. Que ia para São Paulo, dizia, onde ainda se construía, pois aqui, com tanta inflação e falta de investimento, já não havia onde arranjar serviço, ele tinha precisado despedir o servente, pensava em ir com os dois filhos... E foi... Mas não foi de caso pensado, com tudo preparado, roupa e bagagem arrumada com tempo. Não, foi embarcado na raiva, mandou-se numa briga. Briga com Maria Gumercinda Benevides, e não com Maria Sá, pois Maria Sá não é de briga e nunca foi.

 

Maria Gumercinda Benevides já fazia um tempo danado não andava bem da cabeça, rondava pela casa como quem baila no firmamento, cabelo solto, ensebado, vestido rosa, encardido, de um comprido encurtado, cantando não se sabe o quê sobre certo marquês de Perrigô. Dizia a filha coxa de Maria Sá que ela tinha ficado louca, mas Maria Gumercinda Benevides era tão sensata que, quando percebeu que ensandecia, trancou-se no quarto, jurando que, para não fazer asneiras, de lá nunca mais sairia. Porém perjurou. Porque saiu num sábado para increpar o genro na hora em que ele dizia que em São Paulo se negociava construção a dólar, que só indo para lá ia sair daquela pasmaceira... Falastrão — Maria Gumercinda Benevides gritava —, uma Benevides não admite ser abandonada por marido a quem sempre serviu. Então a voz dele também se alteou, dizendo que não ia abandonar ninguém, que ia a trabalho. Mas ela não acreditava, não arredava e só dizia: — Uma Benevides não admite ser abandonada por marido a quem sempre serviu. Não adiantava ele rebater: — Eu volto! Ela retrucava: — Não acredito, pois passarinho que anda com morcego dorme de cabeça para baixo. Então, tal como o fogo se ateia em capim seco, a briga desandou, daí a pouco Maria Gumercinda Benevides ordenava aos berros:

 

— Nunca mais se deite na minha colcha do Ceará. Foi aí que ele se levantou, agarrou de seu o que pôde e sumiu. Os dois filhos sumiram juntos. Depois ele mandou dizer que só ia voltar para o casamento da filha. Mas a filha ficou no caritó. Desde então Maria Sá falou menos do que costumava, pois, como dizia Maria Gumercinda Benevides, quem fala demais dá bom-dia a cavalo. Os meninos vêm de Natal, Páscoa e feriados compridos, às vezes. Ele, nunca. Arrumou-se em São Paulo com outra. As paredes ouviram Natã de conversa uma noite com a irmã, achando que Maria Sá dormia: — Arrumou-se com uma pernambucana bem de vida, esperta na corretagem de imóveis. Mas, como bem sabe Maria Sá, a sorte virou, a mão do diabo uma manhã desprendeu uma corrente, emborcou uma caçamba e fez a geringonça cair de tal jeito que uma ponta de não se sabe o quê lhe rasgou a carne perto da espinha e lhe lesou uma vértebra. Disse isso alguém ou ela sonhou? Ou terá sido praga de Maria Gumercinda Benevides, ainda hoje de vestido rosado no quarto do fundo, cantarolando e falando com o marquês de Perrigô?... era desejo dela que ele ficasse encostado na Caixa, ganhando miséria, com uma dor sem remédio, abandonado pela corretora de imóveis. Da colcha do Ceará Maria Sá agora tentava lembrar qual tinha sido o fim. Não adianta, não lembra.

 

O sol já deve estar entrando pelas janelas do fundo, o ronco de um motor vem aumentando aos poucos, na curva lá de baixo fica um bocadinho mais baixo, mas logo deve voltar a ganhar mais força, ganha, já vem se cansando ladeira acima, é só esperar, a frente da kombi creme aparece no portão e para. Natã desce: abrir o portão. Abre, volta para a kombi e a traz para o jardim. Estaciona com a frente a meio metro do pé da varanda. O motor é desligado, fica o silêncio cortado pelas vozes alarmadas de Loura, que sobe assustada pelo braço da dona. Maria Sá está imóvel. Agora os dois homens descem, Jônatas de boné, cara desdormida:

 

— A bença, mãe.

 

— ...te abençoe.

 

— A bença.

 

— ... te abençoe, Natã.

 

A voz de Maria Sá é sussurrada, seus olhos estão na kombi. Pelo vidro da frente busca adivinhar, lá atrás, algum trecho de caixão, uma ponta pelo menos, mas não consegue. De que cor será a madeira, se pergunta olhando, olhando sem ver. Percebe que alguém diz alguma coisa, que é com ela decerto, mas não entende. Porque Maria Sá está surda e cega, porque Maria Sá agora é só nariz, e por ela entra, trazido por lufada nenhuma, um cheiro que Satanás — só pode! — lhe põe dentro, embalado no bafo cansado daqueles dois filhos do seu ventre, cheiro acre de cio e chorume, secreção podre que escapa do caixão e se deita pelo chão da kombi, apodrece a lataria e põe a perder a terra do jardim, cheiro dos coitos forçados debaixo do peso vivo do corpo do marido, cheiro da colcha do Ceará no sábado à noite, que ela nunca mais lavou, cheiro que a penetra e atazana, cegando tanto que, de tão cega, ela mal consegue adivinhar a trilha que leva ao portão de ripas, por onde envereda, dessa vez para sair de verdade. E, saindo, é seguida pela maitaca Loura, de asas cortadas, em corridinha rebolada pelo empedrado. Maria Sá então se volta, mas só para se agachar, espichar o indicador, Loura pousar no poleiro oferecido, deste ir ao braço, do braço ao ombro, e nele empoleirada começar a desaparecer palmo a palmo, ladeira abaixo, subindo e descendo no ritmo dos passos da dona.

 

O MARIDO DE MARIA SÁ

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